Acácia Maior
Imagine dois jovens de São Vicente, ilha do arquipélago de Cabo Verde, a cruzar-se num lançamento de discos em Lisboa em 2018. Um toca cavaquinho, o outro produz. Começam a improvisar, a gravar em casa, sem agenda nem prazo. O que nasce daí não é um grupo, não é uma banda – é uma árvore. Ou melhor, uma Acácia Maior.
Desde que lançaram o single de estreia "Catá Bórre" em 2020 – com a participação do projeto Cachupa Psicadélica – que este coletivo não parou de crescer. Chegaram ao Lux Frágil, o clube mais icónico de Lisboa. Foram nomeados para os melhores álbuns portugueses de 2023. E continuam, teimosamente, a chamar-lhe simplesmente "uma viagem".
Característica | Detalhe |
|---|---|
Nome do coletivo | Acácia Maior |
Fundadores | Henrique Silva e Luís Firmino |
Origem | São Vicente, Cabo Verde |
Base atual | Lisboa, Portugal |
Estilo musical | Fusão de folclore cabo-verdiano com estéticas internacionais |
Editora | Tabanka Records |
Álbum de estreia | Cimbron Celeste (27 de março de 2023) |
Número de faixas no álbum | 10 |
Duração do álbum | 42 minutos e 37 segundos |
Edição em vinil | Dezembro de 2024, via Rádio Cacheu Discos |
Ritmos explorados | Coladera, mazurca, cola san jon, zouk, funaná, morna |
Concertos notáveis | Lux Frágil (Lisboa), CNAD (Mindelo), festivais em Portugal e Europa |
Colaboradores do álbum | Berlok, Cachupa Psicadélica, Danae Estrela, Danilo Lopes, Débora Paris, Eliana Rosa, João Gomes, Landa, Mindz, Paulino Vieira |
Presença digital | Bandcamp, Apple Music, Spotify, Deezer, YouTube |
Produção de Cimbron Celeste | Henrique Silva |
Ano de formação | 2018 (encontro em Lisboa; primeiros lançamentos a partir de 2020) |
Língua das letras | Crioulo de São Vicente e português |
Distinções | Nomeados para os melhores álbuns portugueses de 2023 |
Palco mais icónico | Lux Frágil, Lisboa |
Formato físico disponível | Vinil (Rádio Cacheu Discos, dezembro de 2024) |

Acácia Maior - Catá Bórre feat. Cachupa Psicadélica
Quem são Henrique Silva e Luís Firmino, os dois troncos desta árvore
Para perceber a Acácia Maior, é preciso perceber primeiro quem a fez crescer. Henrique Silva e Luís Firmino são os dois fundadores do coletivo – e também os seus "raízes e tronco", como eles próprios se definem. Ambos nasceram em São Vicente, a ilha nortenha de Cabo Verde que é também o berço do Carnaval mais famoso do arquipélago e de uma cena musical historicamente rica.
Os dois emigraram para Portugal para estudar engenharia. Mas a engenharia ficou a ser a profissão do dia; a música era o que acontecia à noite, ao fim de semana, em casa. Antes da Acácia Maior, ambos já tinham passagem por formações como o Trio Mêd e por bandas de acompanhamento de artistas cabo-verdianos radicados em Portugal.
Henrique Silva é multi-instrumentista, compositor e produtor musical. Cresceu os primeiros dezoito anos da sua vida em Mindelo, onde aprendeu os primeiros acordes de guitarra. Tem dupla nacionalidade – portuguesa e cabo-verdiana – e é também cofundador da Tabanka Records, que começou como uma loja de discos antes de se tornar uma editora. Luís Firmino concentra-se na composição de letras e melodias, e toca cavaquinho e guitarra elétrica. A voz do coletivo, na maioria das vezes, pertence a colaboradores convidados.
Conheceram-se em 2018, em Lisboa, no lançamento de um projeto da Tabanka Records. Foi, segundo os próprios, amizade à primeira vista – ao som de um violão e de um cavaquinho. Não houve plano, não houve contrato assinado. Simplesmente começaram a criar.
Como surgiu o nome e o que significa Acácia Maior
O nome não é arbitrário. A acácia é uma árvore presente em todo o arquipélago de Cabo Verde – resistente, de raízes fundas, com ramos que se estendem para onde a luz existe. Foi essa imagem que os dois músicos quiseram transferir para o projeto: algo enraizado na tradição, mas sempre em crescimento, aberto à colaboração, sem fronteiras fixas.
O adjetivo "Maior" não é uma afirmação de ego. É uma declaração de propósito. O coletivo explica que cada artista que participa num projeto da Acácia Maior é uma estrela: "O céu tem tantas estrelas, e podem todas brilhar sem ninguém ofuscar ninguém." Acácia Maior funciona, assim, como uma plataforma aberta – não fecha a sua identidade num grupo de elementos fixos.
Esta filosofia distingue o coletivo de quase tudo o que se faz no panorama lusófono. Não é uma banda, porque uma banda tem membros permanentes. Não é um projeto a solo, porque nenhum dos dois fundadores o domina. É, nas suas próprias palavras, "um organismo vivo, profundamente enraizado em solo cabo-verdiano, mas sempre em busca de novos horizontes."
Neste espírito de abertura, encontramos pontos de contacto com outros criadores portugueses que fazem da colaboração uma arte em si mesma. No panorama da cena independente nacional, o Dino D'Santiago foi um dos primeiros artistas a levar o criol e a sonoridade cabo-verdiana até salas de concertos de topo em Portugal – e a Acácia Maior navega, em parte, nesses mesmos mares.
Como a Acácia Maior começou a florescer nos primeiros anos com Catá Bórre
O primeiro sinal público de que a Acácia Maior era algo a levar a sério chegou em dezembro de 2020, com o lançamento do single "Catá Bórre", produzido pela Tabanka Records. A faixa conta com a colaboração de Cachupa Psicadélica – coletivo de Lisboa que cruza sonoridades africanas com eletrónica – e foi uma revelação imediata na cena da música lusófona e afrodiaspórica.
"Catá Bórre" significa, em crioulo de São Vicente, algo próximo de "vaguear" ou "andar à toa" – mas de forma poética, quase contemplativa. A produção de Henrique Silva mistura batidas contemporâneas com referências ao folclore do Norte de Cabo Verde, e a melodia de Luís Firmino tem essa leveza característica da coladera.
Em 2021 chegou "Sodade d'Mascrinha", tema dedicado ao Carnaval de São Vicente e gravado com Cachupa Psicadélica e Eliana Rosa. O single foi lançado em fevereiro, precisamente na época de Carnaval, e tornou-se num dos momentos mais partilhados pela comunidade cabo-verdiana em Portugal.

Acácia Maior – Sodade d'Mascrinha com Cachupa Psicadélica e Eliana Rosa
Neste período inicial, a Acácia Maior foi construindo a sua reputação sem publicidade agressiva, sem grandes campanhas. Passagem a passagem, concerto a concerto – muitos deles em Lisboa, cidade que se tornou a sua segunda ilha.
Cimbron Celeste e o álbum que consolidou a identidade do coletivo
O álbum de estreia da Acácia Maior chegou em março de 2023 e marcou um ponto de viragem para o coletivo, consolidando o seu som e a sua visão. Para perceber o que torna este disco especial, começa pelo seu nome.
O que é um cimbron e porque esse nome faz sentido
Lançado a 27 de março de 2023, Cimbron Celeste é o álbum de estreia da Acácia Maior. "Cimbron" é o nome de uma árvore cabo-verdiana – tal como a acácia, é uma escolha deliberada. A árvore que batiza o álbum remete para as origens insulares do coletivo, para a natureza peculiar do arquipélago. "Celeste" abre essa natureza ao cosmos, ao que está acima e além.
A descrição que os próprios fazem é direta: "Uma viagem de dois anos e meio contada ao longo de 10 músicas." O processo de produção foi lento, feito em casa – literalmente. Henrique Silva gravou, misturou e masterizou o álbum no seu espaço de trabalho doméstico, sem estúdio profissional. Esse detalhe faz parte do espírito do projeto: independente, auto-sustentado, alimentado pela inspiração.
O disco foi recebido com entusiasmo pela crítica especializada. Alexandre Ribeiro, no jornal Público, escreveu que o coletivo nos apresentou, desde o início, "a convicção (silenciosa) de que Cabo Verde era (e é) o centro do universo." No final de 2023, Cimbron Celeste foi incluído entre os melhores álbuns portugueses do ano.
As dez faixas e os universos que habitam
O álbum abre com "Grandeza", faixa com Eliana Rosa e João Gomes, e fecha com "Amor Astral". Entre estes dois polos – a grandeza do que existe e o amor que percorre o cosmos – encontramos dez momentos distintos, cada um com a sua paleta de ritmos e vozes.
"Passarim (Raso Lark)" conta com Danae Estrela e Berlok; "Speransa" com Landa (Mónica Landim) e Berlok; "Ólt Martim" com Danilo Lopes dos Fogo Fogo e o lendário Paulino Vieira. A presença de Paulino Vieira – uma das maiores referências da música de Cabo Verde – no álbum de estreia de um coletivo jovem é, por si só, uma declaração de reconhecimento intergeracional.

BERLOK & FRIENDS LIVE- Passarim ( Raso Lark) By Acácia Maior, BERLOK & Danae, Interpretado por DIEG
Os ritmos explorados ao longo do disco são uma viagem pelas ilhas: a coladera e a mazurca de São Vicente, o cola san jon de São Nicolau, o zouk das ilhas do Sul, o funaná de Santiago. Não é um exercício académico de catalogação – é uma conversa viva entre formas musicais que raramente partilham o mesmo espaço.
Faixa | Colaboradores | Ritmo/Estilo predominante |
|---|---|---|
Grandeza | Eliana Rosa, João Gomes | Fusão contemporânea |
Catá Bórre | Cachupa Psicadélica | Coladera / Afrobeat |
Ólt Martim | Danilo Lopes, Paulino Vieira | Música tradicional cabo-verdiana |
Passarim (Raso Lark) | Danae Estrela, Berlok | Fusão afrodiaspórica |
Bô Contradança | – | Contradança cabo-verdiana |
Afronta | Débora Paris, Mindz | R&B / Crioulo |
Manga D'Terra | – | Funaná / Fusão |
Speransa | Landa, Berlok | Zouk contemporâneo |
Sodade D'Mascrinha | Cachupa Psicadélica, Eliana Rosa | Coladera / Carnaval |
Amor Astral | – | Morna / Soul |

Acácia Maior – Afronta feat. Debora Paris & Mindz
O vinil de dezembro de 2024 e a Rádio Cacheu Discos
Em dezembro de 2024, chegou a edição em vinil de Cimbron Celeste, lançada pelo selo Rádio Cacheu Discos. A Rádio Cacheu é um projeto que, nas suas próprias palavras, "conecta mundos e histórias através da música" – e Cimbron Celeste é descrito como "um dos capítulos desta jornada."
A decisão de lançar em formato físico, num mundo cada vez mais dominado pelo streaming, diz muito sobre a postura da Acácia Maior. Há um apreço pela materialidade da música, pelo objeto que se segura, que se pode colocar numa prateleira ou oferecer a alguém. Para quem cresce a ouvir a cultura oral cabo-verdiana, a música não é apenas um ficheiro – é uma presença.
O concerto da Acácia Maior no Lux Frágil que ficou na memória

Uma das marcas mais significativas da trajetória do coletivo foi a apresentação ao vivo no Lux Frágil, em Lisboa. Nesse concerto, a Acácia Maior apresentou o álbum Cimbron Celeste na íntegra e ao vivo pela primeira vez. O Lux Frágil, inaugurado em setembro de 1998 junto ao Cais da Pedra, em Santa Apolónia, é o clube mais internacionalmente reconhecido de Portugal – e um dos mais reputados da Europa.
Receber a Acácia Maior num palco que acolhe regularmente nomes do techno e da música eletrónica global diz algo sobre a versatilidade do público lisboeta, mas também sobre a força do projeto. A música cabo-verdiana, com a sua riqueza rítmica e melódica, adapta-se com naturalidade a contextos que, à primeira vista, parecem distantes da tradição.
Quem quiser conhecer outros locais onde a música ao vivo de Lisboa ganha vida, pode explorar o LX Factory, um espaço multifuncional em Alcântara que acolhe regularmente concertos, feiras e eventos culturais das mais variadas correntes.
O coletivo como modelo: criação, fusão e tradição
A forma como a Acácia Maior se organiza e cria é tão singular quanto a sua música. Para compreender o projeto em profundidade, é preciso perceber as escolhas estruturais que o definem.

Manga d'terra live Cover – Acácia Maior – Lusofinia festival Macao
Porque é que a Acácia Maior não é uma banda normal
A palavra "coletivo" é usada com frequência na descrição do projeto – e não é por acidente. A Acácia Maior funciona de forma radicalmente diferente de uma banda tradicional. Não há formação fixa para os concertos ao vivo. Não há membros permanentes além de Henrique Silva e Luís Firmino. Cada novo projeto, cada novo single, cada álbum convida artistas diferentes para a constelação.
Este modelo tem vantagens claras. Permite explorar registos muito diferentes de faixa para faixa, de projeto para projeto. Impede a rigidez que muitas vezes limita bandas com o mesmo alinhamento durante anos. E cria um ecossistema de colaboração que beneficia a cena musical mais ampla – os artistas convidados ganham visibilidade, o coletivo ganha dimensão e textura.
Os riscos também existem. A identidade de um projeto tão aberto pode diluir-se. A coerência entre trabalhos é difícil de manter quando os colaboradores mudam. Mas a Acácia Maior parece ter encontrado a sua âncora: a música de Cabo Verde, os ritmos das ilhas, a língua crioula. É esse fio que mantém tudo unido, por mais diversas que sejam as vozes que se juntam.

O papel da Tabanka Records no ecossistema musical afrodiaspórico
A Tabanka Records é a editora que acompanha a Acácia Maior desde o início. Cofundada por Henrique Silva, nasceu como loja de discos antes de começar a lançar as suas próprias produções. O nome "tabanka" refere-se a uma tradição festiva de Santiago, a maior ilha de Cabo Verde – mais um sinal de que o projeto está enraizado no universo cultural cabo-verdiano de forma deliberada e não decorativa.
A editora tem promovido artistas e projetos da diáspora africana radicados em Portugal, contribuindo para que Lisboa se afirme como um ponto de referência para a música afrodiaspórica na Europa. Este papel é crescentemente reconhecido: em junho de 2025, a Tabanka Records apresentou uma noite no Worm, em Roterdão, com Henrique Silva em guitarra ao vivo e Mama Demba em set de vinil.
O dinamismo desta cena musical tem paralelo em outros contextos criativos portugueses. Em Lisboa, eventos como o Festival da Luz celebram a cidade como palco para expressões artísticas que ultrapassam fronteiras geográficas e estilísticas.
Onde ouvir e como acompanhar a Acácia Maior
A presença digital do coletivo está distribuída por várias plataformas. Para quem quer começar:
- Bandcamp (acaciamaior.bandcamp.com): plataforma preferida para compra direta e apoio ao artista. Aqui estão disponíveis todos os singles, o álbum completo e o vinil.
- Apple Music: o catálogo completo está disponível, incluindo colaborações e participações como convidados noutros projetos.
- Spotify e Deezer: Cimbron Celeste e os singles estão acessíveis para streaming.
- YouTube: vídeos musicais oficiais de "Catá Bórre", "Speransa", "Afronta" e outros, bem como a gravação do concerto no CNAD, em Mindelo.
- Instagram da Acácia Maior: @acaciamaior – onde são partilhados updates sobre concertos e novos projetos.

Acácia Maior – Speransa feat. Landa
O que torna este projeto relevante para Portugal em 2026
Portugal tem uma relação histórica com Cabo Verde que vai muito além da geografia ou da língua partilhada. Há comunidades cabo-verdianas enraizadas em cidades como Lisboa, Porto, Setúbal e Braga desde os anos 1960. A música foi sempre uma das pontes mais visíveis entre as duas culturas – da morna ao funaná, passando pela coladera e pela música urbana dos últimos anos.
O que a Acácia Maior faz é diferente de um exercício de nostalgia ou de preservação folclórica. O coletivo pega nos ritmos de Cabo Verde e coloca-os em conversa com estéticas musicais internacionais – afrobeat, soul, eletrónica, R&B – sem que nenhum dos lados perca a sua identidade. O resultado é uma música que os cabo-verdianos reconhecem como sua e que os ouvintes portugueses, europeus e africanos encontram imediatamente acessível.
Este é, talvez, o maior mérito da Acácia Maior: fazer a tradição soar como futuro.
Neste contexto, vale a pena referir que a cena criativa portuguesa tem gerado cada vez mais projetos de fusão cultural com raízes na diáspora. Artistas como o Salvador Sobral ajudaram a chamar a atenção internacional para a riqueza musical que existe em Portugal – e a Acácia Maior é parte dessa mesma narrativa de diversidade e abertura.
Acácia Maior e Cabo Verde: a ilha que não se esquece
Por mais que o coletivo opere a partir de Lisboa, Cabo Verde permanece o centro gravitacional de tudo o que a Acácia Maior faz. As raízes insulares não são apenas referência estética – são a fundação do projeto.
São Vicente como ponto de partida e de regresso
São Vicente, ilha do grupo de Barlavento no arquipélago de Cabo Verde, tem uma identidade cultural muito própria. Mindelo, a sua capital, é conhecida como a capital cultural de Cabo Verde – cidade de intelectuais, músicos, poetas e artistas plásticos. Foi aqui que cresceu Cesária Évora, a voz mais internacionalmente conhecida da morna. Foi aqui que Henrique Silva aprendeu os seus primeiros acordes de guitarra.

Show da Manhã: Conversa com artistas do grupo Acácia Maior
O coletivo nunca escondeu esta ligação. Nas entrevistas, Luís Firmino e Henrique Silva referem-se sempre a São Vicente como o motor criativo do projeto. "Queremos dar um powerzinho àquilo que se faz no Norte", disseram numa entrevista de 2021, referindo-se à vontade de valorizar a cena artística da ilha nortenha num contexto musical muitas vezes dominado pela sonoridade de Santiago.
O concerto de apresentação de Cimbron Celeste no CNAD (Centro Nacional de Artesanato e Design) em Mindelo, registado e divulgado pela RTC (Rádio e Televisão de Cabo Verde), foi um momento simbólico. O coletivo voltou à ilha de origem para apresentar ao vivo, pela primeira vez, o álbum que tinha sido criado longe – mas sempre com Cabo Verde no centro.
Catá Bórre: a palavra e o mundo que ela carrega
O conceito de "Catá Bórre", título do single de estreia e faixa do álbum, merece uma nota à parte. Em crioulo de São Vicente, a expressão remete para um estado de vaguear sem rumo definido – mas de forma tranquila, quase meditativa. Há uma filosofia de vida embutida na expressão: não ter pressa, deixar que as coisas aconteçam, estar aberto ao encontro.

ACÁCIA MAIOR ao vivo
Esta atitude transparece na forma como a Acácia Maior trabalha. O álbum demorou dois anos e meio a ser feito. Os colaboradores foram sendo convidados à medida que a viagem avançava. Não houve pressão de editoras, não houve deadlines impostos de fora. O projeto cresceu ao seu próprio ritmo – como uma árvore.
Cinco razões para colocar Cimbron Celeste na fila de reprodução hoje
Se ainda não conhece o álbum de estreia da Acácia Maior, aqui ficam os argumentos mais concretos para começar a ouvir ainda hoje.
- É um dos álbuns portugueses mais aclamados de 2023 – reconhecido pela crítica especializada, incluindo o jornal Público, como um dos melhores trabalhos do ano no panorama lusófono.
- Tem Paulino Vieira – o lendário músico cabo-verdiano participa em "Ólt Martim", e só por isso vale a escuta.
- Explora dez ritmos diferentes em dez faixas – coladera, mazurca, cola san jon, funaná, morna, zouk e mais, sem que nada soe forçado ou enciclopédico.
- É independente e auto-produzido – cada euro que vai para o Bandcamp chega diretamente ao projeto, sem intermediários corporativos.
- É uma janela para Cabo Verde – para quem nunca visitou as ilhas, este álbum é uma forma de escutar a sua diversidade musical; para quem conhece, é um regresso cheio de reconhecimento.
Para quem quer continuar a descobrir músicos que habitam essa fronteira entre tradição e contemporaneidade, o portal Znaki.fm tem perfis dedicados a artistas do panorama nacional e lusófono, como o percurso de Richie Campbell, que também navega entre mundos musicais com raízes na diáspora africana.
O que esperar do futuro da Acácia Maior
Num universo onde a velocidade de lançamentos é o padrão, a Acácia Maior move-se de forma diferente. Não há confirmação pública de datas de um segundo álbum, mas o modelo do coletivo sugere que o próximo passo será, provavelmente, outro conjunto de colaborações – novas estrelas na constelação, novos ritmos na viagem.
O que se sabe é que Henrique Silva continua ativo como produtor e músico ao vivo, com a Tabanka Records a expandir a sua presença na Europa. A edição em vinil de dezembro de 2024 foi, em si mesma, um sinal de que o projeto tem pernas para continuar a percorrer distâncias.

Acácia Maior – Amor Astral I Bem-Vindos
O aparecimento da Acácia Maior em palcos como o Lux Frágil indica também que a procura por esta sonoridade em Portugal é real e crescente. Há um público para a música cabo-verdiana que vai muito além da comunidade de origem – e a Acácia Maior está a alargá-lo, faixa a faixa, concerto a concerto.
Quem quiser estar a par dos próximos concertos pode seguir a agenda do coletivo através do Bandcamp ou do Instagram. Em Lisboa, espaços como o LX-Factory e o Lux Frágil são os mais prováveis para os receber de volta. Mas São Vicente espera sempre – e o regresso a Mindelo parece, mais cedo ou mais tarde, inevitável.
Num Portugal que celebra a sua relação com o Atlântico e com as culturas que esse oceano ligou, a Acácia Maior é uma das vozes mais honestas e mais necessárias deste tempo. Uma árvore que cresceu longe da sua ilha de origem, mas cujas raízes nunca perderam o contacto com o solo que a fez nascer.






