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Raquel Martins: a cantora portuguesa que trocou o sol de Portugal pelo cinzento de Londres

by Rodrigo Santos

Conteúdo
Raquel Martins: cantora independente e criativa com um toque londrino

Raquel Martins – a magia vocal elegante, melancólica e original de Portugal

Com dezassete anos, Raquel Martins fez as malas em Portugal e apanhou um avião para Londres – sozinha, sem rede de segurança, sem certezas. Não foi à procura de aventura: foi estudar guitarra. O que veio a seguir surpreendeu até ela própria. Tornou-se guitarrista de sessão para nomes como Rina Sawayama, Amaarae, Loyle Carner, Mabel e Biig Piig, percorreu palcos em quatro continentes, e depois fez algo que poucos conseguem: parou, abriu um caderno e escreveu a primeira frase do que viria a ser o seu álbum de estreia. Essa frase foi uma pergunta dirigida à cidade onde vivia: London, when are u gonna feel like home?

Facto

Detalhe

Nome

Raquel Martins

Naturalidade

Portugal

Radicada em

Londres, Reino Unido

Instrumentos

Guitarra de nylon, voz, produção

Estreia discográfica

EP The Way (2021)

Segundo EP

Empty Flower (2023)

Álbum de estreia

LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME? (setembro 2025)

Editora

Bridge The Gap

Guitarrista de sessão para

Rina Sawayama, Amaarae, Loyle Carner, Mabel, Biig Piig, Poppy Ajudha

Festivais em Portugal

NOS Alive, Vodafone Paredes de Coura

Apoiadores internacionais

Gilles Peterson (Worldwide FM), Jamie Cullum (BBC Radio 2), KCRW

Instagram

@raquel.themartins

Raquel Martins Portugal e os anos que moldaram o seu som

Crescer em Portugal, perto do mar, a ouvir música brasileira e jazz clássico na infância – essa é a autobiografia sonora de Raquel Martins. Ela própria descreve esse período como o alicerce de tudo o que viria a construir musicalmente: a guitarra de nylon, as harmonias quentes, a ligação visceral à sua origem lusófona. O avô foi quem lhe ofereceu a primeira guitarra, e foi depois de a perder que ela escreveu a sua primeira música completa. A música como forma de processar o luto foi também o ponto de partida para perceber que tinha algo a dizer através das canções.

Em 2017, aos dezassete anos, Raquel Martins deixou Portugal sozinha. A decisão era clara: ia estudar guitarra em Londres. O que não estava previsto era o quanto aquela cidade ia ser difícil de habitar emocionalmente – uma dureza que décadas depois se tornaria o tema central do seu trabalho mais ambicioso.

Martins Raquel nos primeiros anos londrinos

Chegar a Londres sozinha e nova não é para qualquer um. As pessoas com quem convivia pareciam felizes e integradas; ela sentia-se completamente fora do lugar. Não era infelicidade banal de emigrante – era uma desorientação profunda sobre o que significava ter uma casa e a quem pertencer. Essa tensão entre o Portugal solar da infância e o Tamisa cinzento do quotidiano londrino atravessa toda a sua discografia, de forma mais subtil no começo, de forma explícita no álbum.

Raquel Martins, artista indie com um som único

Raquel Martins, cantora portuguesa requintada e atmosférica

Em vez de se fechar, Raquel Martins abriu-se para o circuito profissional. Tornou-se uma guitarrista de sessão muito procurada – não por acaso, mas por talento e por disponibilidade para trabalhar num ambiente de alta exigência. O mundo da música ao vivo em Londres é competitivo e implacável; ela soube encontrar o seu espaço nele.

RaquelMartins e o trabalho como guitarrista de sessão

Antes de o mundo a conhecer como artista a solo, Raquel Martins acumulou um currículo de sessão que seria a inveja de muitos músicos estabelecidos.

Trabalhou com Amaarae, Biig Piig, Rina Sawayama, Mabel, Poppy Ajudha e Loyle Carner – um elenco que cobre desde o R&B afro-popstar ao indie britânico de maior prestígio crítico.

As tournées levaram-na por todo o mundo, a palcos de festivais de grande dimensão, em condições de produção profissional que poucos músicos jovens chegam a conhecer.

Mas havia um preço. Tocar para outros artistas significa viver dentro da visão criativa de outra pessoa. O tempo entre as tournées era tempo em que o seu próprio projeto ficava em suspenso, com as suas histórias por contar. Foi a perceção desta tensão – e a fadiga acumulada das estradas – que a fez parar e decidir focar-se em si própria como artista principal.

Raquel Martins no videoclip dos Wet Bed Gang

Antes de ter o seu nome em cartaz como cantora, Raquel Martins apareceu no clipe do tema Kill em All, do grupo de rap português Wet Bed Gang, em parceria com Jimmy P. O vídeo foi lançado em 2019 e ela figurou como modelo na produção visual – um trabalho diferente da sua carreira musical, mas que também faz parte do seu percurso como figura criativa no panorama cultural português. Os WBG, formados em Vialonga, são um dos fenómenos mais consistentes do rap nacional, e a presença de Raquel Martins nesse projeto mostra como o seu rosto e a sua imagem circulavam já antes da sua afirmação como artista a solo.

Wet Bed Gang – Kill'em All feat Jimmy P

Raquel-Martins e o EP que chamou a atenção do mundo

Em 2021, Raquel Martins lançou o seu primeiro EP a solo, The Way. Com produção DIY – gravado em grande parte no seu quarto – o projeto atraiu de imediato a atenção de figuras de referência na cena da música alternativa internacional. O DJ e programador Gilles Peterson tocou as faixas na sua Worldwide FM; Jamie Cullum convidou-a para falar sobre o EP na BBC Radio 2 no seu segmento Take 5; Dan Digs da KCRW (Los Angeles) adicionou as músicas à programação. Em novembro de 2021, foi convidada para o famoso Brownswood Basement de Gilles Peterson – uma sessão ao vivo que se tornou um dos momentos de maior destaque da sua carreira naquele período.

O EP acumulou mais de 600 mil streams e ficou com apoio editorial do Spotify e do Bandcamp.

Para uma artista independente e sem o suporte de uma grande editora, estes números representam uma afirmação genuína.

Fragile Eyes e o segundo EP que consolidou o seu lugar na cena

O segundo EP, Empty Flower, chegou em fevereiro de 2023. O primeiro single, Fragile Eyes, foi a abertura: uma crítica direta à insegurança masculina perante o sucesso feminino, embrulhada numa produção de alt-soul com influências latinas e instrumentação rica em cordas e trompas. O The Line of Best Fit destacou-o como "Raquel Martins stands her ground on Latin-inflected alt-soul cut". O BBC Radio 1 incluiu-o tanto na Alternative Selection como no Future Soul Show.

Raquel Martins – Fragile Eyes

Raquel Martins descreveu Empty Flower como o seu trabalho mais vulnerável até à data – um disco produzido no quarto, intimista, sobre identidade, crescimento pessoal, papéis de género e sexualidade. A produção é aparentemente simples na superfície, mas densa na textura: guitarras de nylon como coluna vertebral, camadas de voz manipuladas, uma influência de jazz filtrada por uma sensibilidade de R&B contemporâneo. A música Fragile Eyes deu nome a uma canção que se tornou o ponto de entrada para muitos ouvintes novos.

Em 2022, ainda antes do lançamento do EP, Raquel abriu concertos de Marcos Valle (o compositor brasileiro de bossa nova) e do guitarrista Isaiah Sharkey. Fez a sua primeira atuação cabeça de cartaz em Londres, no âmbito do London Jazz Festival de novembro de 2022. Tocou nos festivais We Out Here, Wilderness e House of Koko, em Inglaterra, e nos festivais NOS Alive e Vodafone Paredes de Coura, em Portugal – consolidando a sua posição simultaneamente nos dois países.

Raquel Martins, o álbum de estreia e a grande pergunta sobre casa

Em setembro de 2025, saiu LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME? – o álbum de estreia a solo de Raquel Martins, editado pela Bridge The Gap. Doze faixas, trinta e cinco minutos, uma narrativa cronológica que acompanha a sua chegada a Londres aos dezassete anos, a desorientação dos primeiros tempos e um processo gradual de aceitação e de redefinição do que é "casa".

O álbum foi escrito durante as pausas de uma agenda de tournées intensa, em noites roubadas entre palcos de outros artistas, e produzido de forma quase inteiramente independente.

A capa mostra Raquel encalhada nas margens do Tamisa, com asas partidas – uma imagem que o crítico da God Is In The TV usou como metáfora para o arco emocional do disco: partir em busca de algo, acabar em terra estrangeira, aprender a ficar.

O jazz e o Brasil como raízes do álbum

A dimensão musical do disco é tão autobiográfica quanto a sua letra. Crescer a ouvir música clássica brasileira e jazz em Portugal deixou marcas que Raquel Martins não tentou apagar – antes as integrou numa linguagem contemporânea que cruza o R&B alternativo com o lo-fi indie, a produção eletrónica e a guitarra de nylon. A faixa Ninguém tem influências diretas de Cabo Verde; Dead End é comparada, em críticas internacionais, aos Hiatus Kaiyote; If I Gave You My Dream tem um groove lo-fi que liberta a voz sem a sobrecarregar.

Raquel Martins – NINGUÉM

A frase que abre o disco, Calma! – retirada da expressão portuguesa "é preciso ter calma" –, é também um autorretrato sonoro: tensão e libertação, confusão e clareza, muitos pensamentos ao mesmo tempo. Não é acaso que seja a única faixa com título em português, junto com Ninguém: são os momentos em que a origem ressurge de forma mais direta, sem tradução.

Real e pessoal, um álbum que fala de quem emigrou

Uma das características que distingue este álbum de outros trabalhos sobre emigração e identidade é a sua recusa em romantizar. Raquel Martins não glorifica Londres nem lamenta Portugal. O que faz é mais difícil: documentar, com honestidade, o estado emocional de quem sai do país jovem, sem rede, e tem de construir tudo do zero numa cidade que não para para ninguém. I Wanna Live Next To The Sea é descrita pela própria como uma homenagem dolorosa aos amigos que ficaram para trás em Portugal – uma das faixas mais vulneráveis do disco, onde o estilo de canto quase sussurrado funciona de forma precisa.

Raquel Martins – I WANNA LIVE NEXT TO THE SEA

Para uma geração de portugueses que emigrou nas últimas duas décadas – muitos dos quais para o Reino Unido –, este disco faz as perguntas que muitos carregam em silêncio. Não é um disco de saudade no sentido clássico; é um disco sobre o que acontece quando a saudade já não chega para explicar o que se sente.

Fotografia, imagem e presença nas redes sociais

A presença digital de Raquel Martins é coerente com o seu trabalho artístico: sem excessos de promoção, com conteúdo próximo do processo criativo. As fotos e os vídeos que partilha no Instagram @raquel.themartins documentam ensaios, bastidores de concertos e momentos do quotidiano londrino – um arquivo visual que complementa a narrativa das canções. Com cerca de 23 mil seguidores na plataforma, mantém uma relação próxima com o seu público sem ceder à lógica do conteúdo de consumo rápido.

No Facebook, a sua página está igualmente ativa, com atualizações de concertos e lançamentos. O seu Bandcamp funciona como arquivo discográfico completo, onde é possível ouvir e adquirir todos os seus lançamentos em alta qualidade – uma escolha que reflete o seu posicionamento como artista independente que valoriza a relação direta com quem a ouve.

Prémios, reconhecimento e o financiamento da PRS Foundation

Em 2024, Raquel Martins recebeu apoio do fundo Women Make Music da PRS Foundation, uma organização britânica de apoio à criação musical. O financiamento chegou no momento certo: ela tinha as canções escritas ao longo de 2023 e precisava de entrar em estúdio com a equipa certa para as gravar da forma que imaginava. O fundo permitiu-lhe trabalhar com um conjunto de músicos, amigos e criativos que ajudaram a dar vida ao álbum.

Este tipo de reconhecimento institucional – uma fundação dedicada a apoiar mulheres na música – é também uma forma de mapear onde ela se situa na cena: uma artista independente, mulher, portuguesa, a trabalhar num mercado muito competitivo, que construiu a sua carreira sem as estruturas tradicionais de uma grande editora.

Raquel Martins, cantora com um som e um ambiente únicos

Raquel Martins: profunda, atmosférica e verdadeiramente original

A participação no ESNS (Eurosonic Noorderslag) de 2025, um dos festivais europeus mais importantes para a descoberta de novos artistas, sublinhou essa posição. O ESNS, realizado anualmente em Groningen (Países Baixos), é o lugar onde a indústria europeia de música ao vivo vai descobrir quem são os artistas do próximo ciclo. Ser selecionada para o cartaz de 2025 é um sinal claro de que Raquel Martins é vista como um nome a seguir além-fronteiras.

Raquel Martins em comparação com outros artistas portugueses da nova geração

Num panorama musical português que nos últimos anos produziu uma série de artistas com projeção internacional – de DJ Korolova no universo eletrónico à emergência do rap de grupos como os Wet Bed Gang – Raquel Martins representa um caminho diferente: o da songwriter que trabalha na interseção do jazz, do R&B alternativo e da pop de autor, com uma identidade sonora que é inconfundivelmente portuguesa mesmo quando canta em inglês.

O percurso de DJ Korolova, artista com projeção global no universo da música eletrónica, partilha com Raquel Martins a lógica de construir uma carreira fora do país de origem sem perder a ligação às raízes. São caminhos distintos, mas a ambição é semelhante: ocupar um espaço internacional que não estava reservado para elas.

No contexto dos festivais portugueses, Raquel Martins já fez parte de cartazes como o NOS Alive e o Vodafone Paredes de Coura – dois dos maiores festivais do país, onde a presença de um artista emergente nacional ao lado de nomes internacionais é sempre um sinal de reconhecimento. Para o panorama da música ao vivo em Portugal, pode-se explorar também o festival Serralves em Festa, no Porto, e o OUT.FEST, no Barreiro, como eventos que igualmente abrem espaço a artistas portugueses contemporâneos.

O que ouvir primeiro se ainda não conheces Raquel Martins

Para quem descobre agora o trabalho desta cantora portuguesa, aqui fica um guia de entrada por ordem de acessibilidade:

  1. Fragile Eyes (2022) — o single mais imediato e o melhor ponto de entrada: alt-soul com influências latinas, letra direta sobre relações de poder e insegurança.
  2. I Wanna Live Next To The Sea (2025) – o primeiro single do álbum de estreia; emotivo, simples, eficaz; fala de Portugal sem o nomear.
  3. Dead End (2025) – o momento mais próximo do R&B contemporâneo, com reminiscências dos Hiatus Kaiyote.
  4. Ninguém (2025) – a faixa com influência de Cabo Verde e letras em português, uma das mais singulares do álbum.
  5. Calma! (2025) – a abertura do álbum; não é de acesso imediato, mas é o autorretrato mais honesto da artista.

CALMA!

Em formato de EP, o recomendado para uma primeira audição é Empty Flower (2023), que reúne numa só escuta aquilo que a torna única: vulnerabilidade, sofisticação, raízes e inquietação.

Raquel Martins e as perguntas que ainda não têm resposta

A pergunta que dá título ao álbum de estreia – London, when are u gonna feel like home? – não tem resposta definitiva no final do disco. Raquel Martins resolve isso de forma honesta:

Casa é ligação, e aquilo a que te ligas é uma escolha tua.

Uma pessoa, um lugar, um álbum, um hábito. Esta conclusão não é vaga – é a única conclusão possível para quem viveu o que ela viveu.

Não é o tipo de resolução que a música pop normalmente oferece. É mais estranha, mais aberta, mais verdadeira. E talvez seja por isso que o seu trabalho ecoa em pessoas muito diferentes: quem emigrou de Portugal, quem ficou e sente a saudade dos que foram, quem nunca saiu mas reconhece a desorientação de não saber bem onde é o seu lugar.

O próximo capítulo ainda está por escrever. Depois de um álbum de estreia que a posicionou firmemente na cena alternativa britânica e europeia, e com uma base crescente em Portugal, Raquel Martins está, finalmente, a construir a casa que procurou desde que saiu.

Empty Flower EP – Making Of

Perguntas frequentes sobre Raquel Martins

Quem é Raquel Martins?

Raquel Martins é uma cantora, guitarrista e produtora portuguesa radicada em Londres. Cresceu em Portugal e mudou-se sozinha para o Reino Unido aos 17 anos para estudar guitarra. É conhecida pelos EPs The Way (2021) e Empty Flower (2023), e pelo álbum de estreia LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME? (2025).

O que faz Raquel Martins de diferente?

O seu som combina jazz, música brasileira, R&B alternativo e lo-fi indie, com produção DIY e letras muito pessoais sobre identidade, migração e o que significa "sentir-se em casa". Antes da carreira a solo, foi guitarrista de sessão para artistas como Rina Sawayama, Amaarae e Loyle Carner.

Onde se pode ouvir a música de Raquel Martins?

Em todas as plataformas de streaming (Spotify, Apple Music, YouTube), no Bandcamp para adquirir os lançamentos, e no Instagram @raquel.themartins para seguir as novidades.

Raquel Martins já tocou em Portugal?

Sim. Participou nos festivais NOS Alive e Vodafone Paredes de Coura, e tem recebido apoio regular da rádio e imprensa nacionais portuguesas.

Que relação tem Raquel Martins com os Wet Bed Gang?

Participou como modelo no videoclip do tema Kill em All (2019), em parceria com Jimmy P, um dos temas do EP Filhos do Rossi do grupo de rap português WBG.